Vestir a camisola é uma daquelas expressões que está muito na moda nos dias que correm, seja por desmotivação ou simplesmente por frustração, começam-me a faltar camisolas para vestir e hoje decidi vestir esta.

Os raios de sol rompiam pelos cabeços da Avanteira, é o primeiro dia de Outono. Já apanhamos chuva, frio e nevoeiro, o sol melancólico ainda nos veio dar um abraço de despedida.

Hoje é o dia de colher o resultado de um ano de cuidado com a terra e com a videira. Vindimar é uma tradição familiar e o vinho uma relíquia, que entusiasmados partilhamos quando nos reunimos.

Cheguei à vinha com a energia necessária para empunhar a tesoura e repetir os ritmados movimentos que se seguiriam. Longe vão os tempos em que a jornada começava bem cedo e só terminava às tantas da noite. De um momento para o outro, as cabeças desaparecem entre cepas e parras, e as já ágeis mãos libertam com ternura os frágeis cachos.

Agacha, corta, carrega e descarrega nas dornas da carrinha, ritual repetido quantas vezes as necessárias.

A equipa, perde os elementos femininos para ir preparar o almoço, as dornas são encaminhadas para a adega da Avó Elvira e onde começa a vinicultura.

Ligamos o desengaçador e dá-lhe cacho para dentro. Os gloriosos bagos acompanham o mosto para dentro da dorna e começa o corrupio de uvas a entrarem e engaços a saírem. Altura para provar os mostos.

[nota de prova de mosto:]

A uva branca continua a mostrar o vigor de outros anos, tanto na cor, na acidez como no açucar. A cor da uva tinta já foi mais carregada e denota pouco açúcar, bem mas agora é deixar a química acontecer, para já, ficam a repousar na dorna, daqui a uns dias vão ser “apertadas” enchendo as ansiosas barricas que aguardam na adega pelo fervilhar.

O almoço já está na mesa, jardineira de vaca e acompanhada pelo vinho de 2011, ingredientes perfeitos para acalentar a alma e o espírito para o regresso às tarefas de lavagem e arrumação. Quando olhamos em volta sentimo-nos felizes e já saudosos por termos terminado, respirando o adocicado e alcoólico aroma que paira no ar.

O dia mereceu que sujasse a camisola que vesti. É fascinante perceber que em cada realização conseguimos com unidade, tolerância, respeito e empenho, criar algo, basta vestirmos a camisola.  As expetativas do resultado são moderadas, como já disse “Não fazemos Milagres há 40 anos”.

 

(Este texto foi escrito e revisto com algumas regras do acordo ortográfico que me parecem fazer sentido)